quinta-feira, 29 de maio de 2008

Cachoeira do Sul - A Terra do Arroz


Pintura de Itamara Fortes Avena: Artista Plástica de Cachoeira do Sul 1998, 16 de Novembro. Como garimpeiro, durante três dias em que estive na Cidade de Cachoeira do Sul, na busca de material para uma pesquisa. O que me trouxe? Minha avó foi escrava nesta cidade, no século passado, sem lenço nem correntes agradeço algumas pessoas que me auxiliaram neste garimpo: Professora Lair Vidal ativista do movimento negro, João Alves Mor com sua emoção ao lembrar do nego “peão”, Maria Nilda Flores dos Santos que encantou com sua intuição, João Ramos Magalhães de 80 anos, Geraldo Silva e esposa com a qual dei muitas risadas, Carlos Gaspar e Januário Lima do PT que me conduziram pela cidade, Manoel Setembrino da Silveira cuja tia avó foi Dna. “Eva dos Bordados”. Artista Plástica Itamara Fortes Avena, Aldo Kiling pela sabedoria. Rodo pela cidade. Subo e desço ladeira. Estou dentro e fora dos campos de arroz. Um trem. Um zoológico. As águas dançam nas cores da cachoeira, lá no sul. Uma constelação de praças em círculos como um paraíso. O homem livre comprou o jornal e chorou antes de ler, depois acendeu um cigarro. E olhou para terra do arroz e a terra do arroz olhou para ele. Dos depoimentos: A memória viva da cidade. - Minha avó foi capturada na áfrica. Evinha tinha 1, 90 de altura, veio para no Rio de Janeiro, nas minas de carvão aqui no Rio grande e depois em Cachoeira. Naquela época, filho de nego era “crias”. Lavando roupa no rio acabou salvando o filho de um sinhozinho. A cria ficava amarrado ao pé de uma árvore para não chorar e incomodar o sinhozinho. O feitor deu um pontapé na coluna da minha avó, “Eva dos bordados”, ficando paralítica. A Evinha, soube acabou agredindo o capataz a pauladas. Condenada à morte e (+ ou -) trinta chicotadas, na praça da matriz. O negro tinha preço no mercado escravo. Valor da mão-de-obra era assim: Cria = criança, - ½ peça. Jovem ou adulto 01 peça. Velho ½ peça”. Retratos na parede, casarão em estilo colonial. Um vazio na janela. Amizades que nunca vão partir... No silêncio da sala, vou juntando os pedaços da minha história de velhos papos no galpão e aventuras pela fazenda. Uma lágrima escorre pelo rosto. – Convivi com os homens lá no galpão, na fazenda do meu pai. Em casa todos eram mais velhos. Lembro do nego peão. Que depois de anos sumiu. Um dia bateu a minha porta, uma mulata que ia trabalhar na minha cozinha. Depois, fiz algumas perguntas. Quando virou-se para mim, vi nela o nego peão, meu amigo. - Cegaste a conhecer o nego peão? – Sim, era meu pai, que já morreu. Parecia uma coisa “divina”, vir trabalhar na minha casa, a filha do meu amigo. (Lágrimas). Um casal de preto velho sentou-se na sala, as paredes pintadas de branco. Ela serviu chimarrão para ele e ele lhe deu uma flor. Sinal que o amor nunca vai acabar. – Me criei no passo da Taquara. Um ou outro negro se rebelava e poucos chegavam a ser capataz. A relação entre negro e o patrão era de “distância”. Na época dos escravos “a palavra do escravo sem dinheiro era o “fio do bigode”. O dono fazenda mandava o negro enterrar o dinheiro e ali dizia que o lugar era mal assombrado. (risadas). No baile dos negros, em caso de abuso das negrinhas e houvesse briga “se cortava a orelha, mas não matava”. (risadas) Reza lenda da Escrava Santa Josefa: Nasceu no tempo da escravidão, era negra e seu senhor tanto a espancava, martirizava e surrava que a dor a santificou. Humilde sofredora, quando o açoite do patrão rasgava-lhe a carne, punha os olhos num cantinho do céu, onde então, via Nossa Senhora. Possesso o senhor inventa novos suplícios e, num dia de sexta-feira Santa, manda a negra fazer sabão, o que ela obedece paciente, mas assim que o tacho começou a ferver, o malvado atirou a escrava lá dentro e ela morreu logo; sendo enterrada ainda tinha um sorriso nos lábios. Coragem dos que padecem. Muitos anos depois, em dia que um cachorro fuçando a terra, descobre um braço, resolvem exumar o cadáver da negrinha. Estava intacta com o mesmo sorriso, tão bonita e circundando-lhe a cabeça um estranho esplendor de luz celeste. Era a luz da lágrima Bendita que deixara cair Nossa Senhora na escura fronte da negrinha mártir. O povo ao vê-la assim, caiu de joelhos. Desde então quem precisa de alguma graça recorre à negrinha escrava, para interceder junto a virgem Maria.

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