quinta-feira, 26 de junho de 2008

Francelina, Maria Francelina


No final do século 19 o viver dos homens, das mulheres e das crianças era mais tranqüilo, mais pacífico, mais fácil de ser desfrutado sem maiores sobressaltos, embora vez ou outra a violência já andasse aprontando das suas. Afinal de contas, a natureza humana é imprevisível, o que tem sido sobejamente demonstrado desde o princípio, quando Caim matou Abel e deu início a essa prática nefanda. Foi o que aconteceu no dia 12 de novembro de 1899, data em que Bruno Soares Bicudo, um soldado conhecido como Brum, do 1º Regimento de Cavalaria da Brigada Militar gaúcha, combinou um piquenique com sua namorada Maria Francelina Trenes, de 21 anos, e mais os seus amigos e também soldados Felisbino Antero de Medina, Manoel Alves Nunes e Manoel Antonio Vargas, que deveriam comparecer acompanhados de suas respectivas esposas. O local escolhido foi um morro situado no atual bairro Partenon, defronte ao terreno onde funciona o Hospital Psiquiátrico São Pedro, na Avenida Bento Gonçalves, e que na época ainda se encontrava coberto pelo mato e algumas árvores. Foi ali que a excursão dos jovens se prolongou por algumas horas de alegria descontraída, e quando o churrasco acabou, Bruno e Maria Francelina afastaram-se do grupo porque haviam iniciado uma pequena discussão. Depois disso a tarde avançou sem novidades até o momento em que os demais participantes do passeio se deram conta de que a ausência dos dois se prolongava por tempo além do razoável. Então eles começaram a procurá-los pelas redondezas, encontrando o soldado ao lado de uma figueira, com uma faca na mão, e a moça estirada no solo, toda ensangüentada. Ela havia sido degolada pelo rapaz que a acompanhava. Desorientados com aquela tragédia que não conseguiam entender, os três militares trataram de comunicar o ocorrido aos seus superiores hierárquicos no regimento, e de lá foi enviada imediatamente uma guarnição que desarmou o assassino e o levou preso para o quartel. Posteriormente, ele foi julgado pela justiça e condenado a 30 anos de reclusão na Casa de Detenção de Porto Alegre, aonde veio a falecer sete anos depois, assassinado, ao que se sabe, por outro detento. Com a elucidação do caso as populações periféricas de Porto Alegre passaram a considerar Maria Francelina como uma santa que atendia aos pedidos e orações dos desafortunados, principalmente após se ter espalhado a notícia de que em uma sessão espírita realizada nas proximidades do local do crime, havia sido recebida uma mensagem da moça declarando que não desejava ser lembrada como “Maria Degolada”, e sim pelo seu verdadeiro nome. Nessa época, já surgira no alto do morro uma pequena vila, cujos moradores decidiram em reunião que dali em diante o lugar seria chamado de Maria da Conceição, denominação que de fato aparece nos registros da administração pública. No local foi erguida uma construção tosca sobre o que diziam ser o túmulo da moça assassinada, uma espécie de capela aonde até os dias de hoje chegam pessoas para fazer os mais diferentes pedidos, principalmente aqueles que envolvem "amores perdidos", “amores contrariados” ou "dores de amor". Depois de atendidas em suas solicitações elas retornam à “capela” para agradecer à benfeitora, trazendo velas, peças de cera, véus de noiva, fotos, flores e outros presentes, depositando suas oferendas junto ao túmulo. Conta-se, no entanto, que Maria Degolada atende a todos os pedidos, exceção feita aos dos policiais... A tragédia acontecida no morro do Hospício serviu de tema à publicação intitulada “Maria Degolada, mito ou realidade?”, da Editora Estadual Arquivo Público do Rio Grande do Sul, 1994, Porto Alegre, sendo mencionada, ainda, em “Rio Grande do Sul: um século de história”, de Carlos Urbim, Lucia Porto e Magda Achutti, Porto Alegre, 1999, volume 2, páginas 625/626; e “Porto Alegre: guia histórico”, de Sérgio da Costa Franco; Editora da UFRGS, 1988, página 259. Também no teatro o triste acontecimento é relembrado através da peça “Maria Degolada”, de Hércules Grecco, cujo resumo informa que ela “conta a tragédia de Maria Francelina, mulher marcada pela violência do início ao fim de sua vida, tendo como pano de fundo a Revolução Federalista de 1893. Com sensibilidade e originalidade, o autor trata temas delicados, como a cultura da violência e o papel da mulher no cotidiano provinciano”. Sobre o Hospital São Pedro, destinado ao tratamento psiquiátrico na cidade de Porto Alegre, ele teve sua construção iniciada em 02/12/1879, sendo a primeira parte terminada em 1884; mas somente em 1903 concluiu-se o seu quinto e último pavilhão. Ele chegou a abrigar mais de cinco mil pessoas, porém, com a adoção de uma nova política de atendimento médico aos que têm problemas psíquicos, o hospital está sendo gradativamente desativado.
O Hospital São Pedro foi o primeiro hospital psiquiátrico da cidade; sua construção foi iniciada em 02/12/1879; a primeira parte foi concluída em 1884; todavia, o 5o. e último pavilhão foi concluído somente em 1903. Em 1884, foi visitado pela Princesa Isabel, quando estava com 1/4 da sua construção concluída. Na época, considerava-se grande avanço colocar em hospital pessoas indevidamente trancafiadas em cadeias. No auge, o hospital chegou a abrigar mais de 5 mil pessoas; todavia, com a nova política em andamento no setor, de abrigagem de pessoas com sofrimento psíquico em lares menores, o hospital está sendo gradativamente desativado.
No morro em frente ao Hospital, chamado antigamente de Morro do Hospício, ocorreu à rumorosa tragédia da "Maria Degolada", que está sendo retratada em peça teatral na cidade. Lá, em 12/11/1899, Maria Francelina Trenes, de 21 anos e de origem alemã, foi cruelmente degolada por seu amante, por motivo torpe (discussão fútil). Naquele domingo, no local da atual rua Carlos de Laet. Logo, o local passou a ser venerado por pessoas humildes, principalmente por pessoas com "amores contrariados", recebendo velas acesas e oferendas à moça que passou a ser chamada popularmente de "Maria Degolada". Nos meios oficiais, o morro e o local são referidos por nome menos deprimente: "Maria da Conceição".
Atualmente, existe no local uma pequena capela, com muitas velas constantemente acesas. O local é de difícil acesso; a ruela que leva ao local está asfaltada, mas é muito estreita, sinuosa e ladeada por casas muito humildes, parecendo um "beco sem saída".
De todos os lugares da capital, o Morro MARIA DA CONCEIÇÃO talvez seja o mais rico em história, em valor cultural.
Aqui neste bairro, se deu uma das histórias que mais marcaram a memória desta cidade: - Dessa tragédia nasceu o nome desta localidade. Mas é bom que todos saibam: Com a elucidação do caso as populações periféricas de Porto Alegre passaram a considerar Maria Francelina como uma santa que atendia aos pedidos e orações dos desafortunados, principalmente após se ter espalhado a notícia, de que em uma sessão espírita realizada nas proximidades do local do crime, havia sido recebida uma mensagem da moça declarando que não desejava ser lembrada como “Maria Degolada”, e sim pelo seu verdadeiro nome.
Nessa época, já surgira no alto do morro uma pequena vila, cujos moradores decidiram em reunião que dali em diante o lugar seria chamado de Maria da Conceição. MARIA FRANCELINA não gosta que a chamem de Maria Degolada. Dela, pouco se sabe. Que era alemã, segundo registro de óbito na SANTA CASA DE MISERICÒRDIA. É tudo.
Santuário Milagroso "Maria da Conceição". Dizem que só não atende pedido de militares.
Se é lenda, não sabemos...
O resto que sabemos vem da memória dos mais velhos. - Bruno soares Bicudo,que na época do crime tinha 29 anos,foi condenado a 30 anos de trabalho na casa de Correção de Porto Alegre. Ficou a história do morro. A história da MARIA FRANCELINA, que todos hoje chamamos de MARIA DA CONCEIÇÂO. - Seu corpo foi sepultado no jazigo 741 do Cemitério da Santa Casa de misericórdia, em 14 de novembro de 1899, dois dias após sua morte. Nunca se soube de qualquer parente ou registro oficial sobre essa moça.Outra curiosidade sobre o morro - A rua onde esta o Bar do Ricardo , A Rua Caldre e Fião, tem uma peculiaridade:JOSÈ Antonio do Vale Caldre e Fião era um médico que nasceu em Porto Alegre em 1821 e morreu na mesma cidade, em 1876. Radicou-se no Rio de Janeiro, defendeu a causa abolicionista,foi perseguido e retornou ao Rio Grande do sul. Elegeu-se deputado na Assembléia Provincial e presidiu a sociedade Partenon Literário, importante núcleo de efervescência cultural da época. è autor do romance "O CORSÀRIO",de 1849, 0 segundo escrito no Brasil e por que a curiosidade? -Porque Caldre e Fião era amigo do povo. Em especial dos negros. Não esqueçam que a abolição da escravatura só se deu em 1888, 11anos antes da morte de Maria da Conceição.
E Caldre Fião era um abolicionista. Quando um negro ou alguém do povo se via em dificuldades, era a ele que recorriam. Hoje, passados 120 anos da abolição e 109 anos da morte de MARIA FRANCELINA. Lembranças tristes, pesarosas, mas como objeto de dignidade, a mesma dignidade de um Caldre e Fião, de uma Maria Francelina, que se tornou uma espécie de padroeira e protetora de nossa gente.

domingo, 22 de junho de 2008

Na ponte do Açorianos

Estou na ponte do Açorianos, em Porto Alegre, no Bairro Cidade Baixa.
Esta foto foi tirada por minha namorada, numa tarde de inverno do ano de 2007,
logo após ter saido de uma exposição na Escola La salista Pão do Pobres.

Eu mesmo, mesmo eu.


Estou na sala marrom da minha casa imaginária.
No futuro da minha mente... Estou só no fundo,
marrom é a cor da terra.

sábado, 21 de junho de 2008

Atlas, Natasha Atlas


A voz inebriante que está embalou os personagens da Novela “O Clone”, é filha de uma inglesa e pai egípcio chamada Natacha Atlas. A cantora, nascida na Bélgica e de ascendência marroquina, esteve no Brasil em 1997, quando se apresentou no Free Jazz. Amante da música e cultura brasileiras, Natacha está de volta ao país, onde passa férias na casa de seu tio, em São Paulo. Apaixonado pela diva do tribal-house e da ethnic fusion, Marcus Viana, líder do grupo Sagrado Coração da Terra e produtor musical da novela, a convidou para uma participação especial na trama, com o aval do diretor Jayme Monjardim. Impressionado, Jayme já prepara outro projeto para a belga, mas que ainda guarda a sete chaves. Marcus, no entanto, está a mil com a estada da vocalista da banda TransGlobal Underground em solo brasileiro. Todos os dias fala com ela por telefone e revela que tem um projeto de lançar um CD mesclando bossa nova com música para meditação, do qual Natacha deverá participar. Por enquanto, ele se dedica à divulgação de Maktub, disco contendo a trilha instrumental de O Clone. Quem assistiu às cenas do casamento dos personagens de Jade e Zein em “O Clone” deve ter se segurado para não levantar do sofá e cair na dança do ventre. A cantora que animou a festança era a belga Natacha Atlas, que esteve no Brasil especialmente para participar da novela de Glória Perez. O quarto disco da carreira de Natacha, Ayeshteni, foi lançado no País no final daquele ano passado, mas passou despercebido pelo público que não costuma freqüentar as pistas de dança, onde ela é velha conhecida. Criada em um bairro marroquino de Bruxelas, Natacha Atlas aprendeu a falar árabe e a dançar como seus antepassados ainda criança. Na adolescência ela foi para Londres e descobriu que seu negócio era a dance music. A carreira solo começou em 1995, com o ótimo disco Diáspora. Claro, com letras em árabe, mistura rock, batidas eletrônicas, inglês e até francês. De lá para cá foram mais três álbuns que cada vez mais se aproximaram das pistas. Destaque para a versão dançante de “Ne Me Quitte Pas” e “Mactub”.
Mactub
Senhor, venha me ajudar
Clamarei a ti meu Deus
Habib, só tu podes me salvar
Habib, meu querido, venha me ajudar
Habib, não te alongues de mim, pois a angústia está perto
Senhor em ti confio
Não me deixes confundido
Nem que meus inimigos Triunfem sobre mim!
O Senhor dará força ao seu povo
Habib abençoe seu povo com paz
Espere pois no Senhor
Ele então te fortalecerá
Inimigos tentarão me alcançar
Tu Senhor, os fará tropeçar
Habib, venha nos salvar
Sempre iremos te louvar
Deus teve piedade de mim
Ele ouviu o meu pranto
Pois tua palavra é reta
Fiéis são as tuas obras
Deus ouviu o nosso clamor
A terra se abalou
Os montes se moveram
Nos céus o Senhor trovejou
Não confiarei no meu arco
Nem minha espada me salvará
Pois o senhor dos exércitos
O Senhor dos exércitos
O Senhor comigo está!
O Senhor dará força ao seu povo
Te bendirei enquanto eu viver
O meu socorro está no nome do Senhor

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Abu, Múmia Abu-Jamal


Imaginemos o caso de um acusado: não lhe permitem defender-se a sí mismo; as testemunhas de defesa são afastadas. Lhe imputam o homicidio de um policial e o juiz é membro vitalicio da Ordem Fraternal da Policia (FOP). Depois, sua apelação é rechaçada numa corte onde cinco dos sete juizes comprovadamente receberam contribuições e o endoço da FOP para suas respectivas candidaturas. Logo em seguida inventam uma "confissão". Para mim, não se trata de "imaginação" o porque das coisas acontecerem dessa forma.
Mumia Abu-Jamal, Source, fevereiro de 1999
Mumia Abu-Jamal está a anos no corredor da morte, acusado falsamente de matar um policial branco da Filadélfia. Não recibeu um julgamenteo imparcial; o sentenciaram a morte por suas crenças políticas.
Mumia militou nos Panteras Negras da Filadelfia ainda na tenra idade dos 15 anos; foi da comissão de informações. Posteriormente, trabalhou como jornalista em uma emissora de rádio, os ouvintes lhe chamavam de a "voz dos que não tem voz". Defendeu a MOVE, um grupo de revolucionários negros, e denunciou os ataques policias contra eles. Colocou seu talento jornalístico a serviço do povo, criticando o racismo e a brutalidade policial. Em 1980, com a idade de 26 anos, foi eleito presidente da sessão Filadélfia da Associação dos Jornalistas Negros.
Por todas essas razões a policia e as autoridades odiavam Mumia. Tentaram matá-lo, mas fracassaram; então o acusaram falsamente de homicidio de um policia chamado Daniel Faulkner. Mumia tem passado os últimos 17 anos no corredor da morte, em isolamento total 23 horas por dia. Todo contato físico com seus familiares lhe é negado. As autoridades penais abrem e fotocopiam correspondência confidencial sobre seu processo judicial. Foi castigado por escrever o livro Live from Death Row. Proibiram seus comentários através do rádio. Nas palavras de Mumia: "Não basta minha morte, querem meu silencio".
Mumia dedicou toda sua vida ao povo, sobretudo aos que vivem nos guetos e nos bairros pobres, e aos presos. A brutalidade, o isolamento, as calúnias, a censura, nada disso o tem abatido; mantêm sua conciência e o firme compromisso revolucionário.
É uma profunda injustiça que este companheiro esteja condenado a morte. E esta historia de injustiça é muito maior que a história de um só homem: é uma concentração do tratamento rotineiro a que estão submetidos os negros que caem nas mãos da polícia, dos tribunais, dos cárceres, dos meios de comunicação. Ademais, mostra como o governo trata a oposição política, especialmente aos revolucionários que logam conectar-se com os excluídos da sociedade. O que fazem a Mumia demonstra patentemente por que este governo e sistema judicial não deve ter o poder de executar seres humanos. O sistema está construindo cárceres a torto e a direito, está criminalizando toda uma nova geração. Há uma epidemia de brutalidade e assassinato policial; a policia faz o papel de juiz, jurado e verdugo em nossas comunidades. Com suas leis de "tres strikes" condenam milhares de jóvens a passar o resto da vida atrás das grades. As execuções continuam a todo vapor; os politiqueiros pedem mais cárceres, mais policias, mais castigos e mais execuções. Para todos os que querem parar estas medidas fascistas, a luta em defesa de Mumia é a chave da frente de batalha.
Condenado a morte por suas crenças políticas
Em 9 de dezembro de 1981, Mumia Abu-Jamal estava dirigindo seu taxi no centro da Filadelfia. Viu que um policial golpeava seu irmão, William Cook, com uma lanterna metálica; acudiu correndo; houve luta. Enquanto Mumia sangrava na calçada de um tiro no peito, o tira Daniel Faulkner, estava a ponto de morrer. Acusaram Mumia de homicidio e não ficou livre sequer um dia depois daquela tarde.
Dois meses depois de que foi preso, Mumia escreveu: "É um pesadelo que meu irmão e eu estejamos nessa situação horrivel, especialmente quando meu principal acusador, a polícia, também foi meu atacante. Parece que meu verdadeiro crime foi ter sobrevivido a seus ataques, mas essa noite as vítimas fomos nós".
A verdade é que a polícia tentou matá-lo várias vezes naquela noite. Primeiramente, recebeu um tiro na esquina da Locust com a 13. Mais tarde, quase morto pelo tiro que lhe perfurou um pulmão e o diafrágma, os agentes que participaram do incidente lhe golpearam violentamente e bateram sua cabeça contra um poste um poste.
Mumia despertou no hospital depois de uma cirurgia. Recebera muitos pontos e estava com tubos no nariz. Enquanto sentia intensa dor na bexiga e nos rins, um policial colocava o pé em cima do recipiente da urina, impedindo a drenagem, ao mesmo tempo que sorria.
Mais tarde, depois que os médicos lhe avisaram que poderia contrair pneumunia no pulmão perfurado e que isto poderia matá-lo, o fizeram passar noite após noite em uma cela fria.
Em 1o. de junho de 1982, teve início o julgamento de Mumia no tribunal do juiz Albert Sabo. Em 3 de julho, foi condenado a morte devido as mentiras do governo, enquanto este afirma que não acusa, não encarcera, nem executa ninuguém pelas suas crenças ou atividades políticas. Contudo, é patente que condenaram Mumia em uma farsa de julgamento -- e o pretendem executar--porque é um revolucionário de grande influência poítica.
Desde quando frequentava o partido dos Panteras Negras para a Libertação, Mumia estava em sua mira. Foram publicadas mais de 800 páginas sobre os expedientes secretos da policia política sobre Mumia. Há documentos que comprovam que o governo federal e o governo da Filadelfia se empenharam em seguir seus passos, quando tinha apenas 14 anos! Aos 15 anos, Mumia foi um dos fundadores da sessão Filadelfia do partido dos Panteras Negras para a Libertação. Aos 17 anos, ocupava o cargo de secretário na comissão de informações e redator do periódico Black Panther. Essa experiencia "deu a ele um caráter distintivamente antiautoritario e antisistema que sobrevive até hoje".
Grampearam seu telefone e enviaram informantes para seguir seus passos. Interrogarm e hostilizaram seus amigos e professores. A policia da Filadélfia, sob o comando do chefe de polícia Frank Rizzo, levou a cabo uma brutal campanha de repressão contra os Panteras.
Durante os anos 70, Mumia seguiu servindo o povo. Em seu trabajo jornalistico, denunciou a selvageria e o racismo do Departamento de Polícia da Filadélfia, especialmente sua campanha contra a organização dos negros utópicos radicais MOVE.
Em 1978, depois de 10 meses de assédio, um exército de 500 policiais atacou a sede do MOVE em Powelton Village. Os 15 militantes do MOVE foram condenados pela morte de um policial durante o fogo cruzado de um ataque. Mumia divulgou o julgamento e deu seu apoio ao MOVE.
Nas ruas, os ouvintes o chamavam de "voz dos que não tem voz", enquanto que as autoridades da Filadelfia o odiava. Rizzo ameaçou Mumia; dizendo que seus informes "tinham que parar.... Um dia, e espero que seja sob meu comando... terá que pagar pelo que está fazendo hoje".
Na audiência da sentença pelo homicídio de Faulkner, o subpromotor McGill argumentou que seus 12 anos de militancia justificavam uma pena de muerte. Perguntou para Mumia: "Alguma vez você disse que o poder nasce do fusil?" Mumia respondeu: "Este é um ditado de Mao Tsetung. Os Estados Unidos roubaram a terra dos indígenas, e não o fez com sermões do cristianismo e civilização. Creio que os Estados Unidos demonstaram que o ditado é verdadeiro".
Por suas crenças políticas, o juiz Sabo o condenou a morte. Mumia resume tudo com estas palavras: "A pura verdade é que para os negros, para os pobres, os portorriquenhos e os indígenas que sobreviveram ao genocidio, a justiça é uma mentira, uma embromação, uma treita.... Sou inocente das acusações que me tem imputado, apesar da confabulação de Sabo, McGill e Jackson para negar-me o suposto `direito' de representar-me eu mesmo, de contar com meu proprio assessor, de escolher um jurado de meus iguais, de interrogar a testemunhas e de fazer declarações do princípio até a conclusão do julgamento. Sou inocente apesar do que vocês 12 pensam, e a verdade me libertará!... Em 9 de dezembro de 1981 a policia tentou me executar na rua. Este julgamento está acontecento porque falharam.... O sistema não perde tempo! Mas um dia a casa cai!"
A farsa do julgamento
O juiz Sabo está relacionado à maior quantidade de sentenças a morte do país; seis ex fiscais da Filadelfia afirmaram em declarações sob juramento que esse juiz é parcial.
Durante a seleção do juri, não permitiram que Mumia proseguisse interrogando aos candidatos, com o pretexto racista de que sua aparencia (um negro com barba e dreadlocks) "intimidava" aos potenciais jurados. Contra a vontade de Mumia, a corte nomeou Tony Jackson como seu advogado. Quando Jackson recusou-se em participar na seleção do juri no lugar de Mumia, Sabo o ameaçou de prisão.
Então, Sabo resolveu ele mesmo escolher o juri! Não escolheu nenhuma pessoa que se opusesse a pena de morte. O promotor usou a faculdade de recusa sem causa para rechaçar 11 afro-americanos (hoje, sabe-se que o promotor da Filadélfia elaborou um vídeo de capacitação para ensinar essa prática racista a novos promotores). No final, Mumia acabou diante de apenas um jurado negro.
A discriminação de Sabo contra Mumia foi indignante: disse que Mumia estava causando disturbios; durante grande parte do julgamento o expulsou do tribunal. Rechaçou o pedido de que John Africa (o fundador do MOVE) assessorasse Mumia. O investigador da defesa renunciou antes do julgamento porque a corte não autorizou fundos para o pagamento de um especialista em balística e de um patologista.
A campanha de mentiras
O juiz Sabo é membro vitalicio da Ordem Fraternal da Policía (FOP) e cinco dos sete magistrados da Suprema Corte da Pensilvania, que rechaçaram a apelação de Mumia, receberam contribuições ou o endosso da FOP para sua candidatura. Ademais, a FOP orquestrou uma campanha em pró de sua execução: além de piquetear as reuniões de apoio a Mumia; escreveram cartas a de ameaça a proeminentes opositores de sua execução; incitaram a viúva de Faulkner a pronunciar mentiras por todo lado; e, de mãos dadas com a grande imprensa iniciaram uma campanha para caluniar os partidários de Mumia e tergiversar as informações.
Depois da farsa do julgamento, passaram em seguida a divulgar as mentiras incessantes da FOP e da imprensa: que as testemunhas identificaram Mumia como o homicida, que confessou no hospital, que sua arma matou Faulkner.
Mas a verdade é que as autoridades inventaram provas, coagiram as testemunhas, fabricaram uma "confissão" e ocultaram provas.
Coação de testemunhas
A promotoria intrevistou mais de 100 testemunhas, mas apenas apresentou as poucas testemunhas dispostas a apoiar sua versão dos fatos, e não passou os nomes dos demais para a defesa. Mumia não tinha dinheiro para contratar investigadores e buscar as testemunhas.
Antes do julgamento, quatro testemunhas disseram que viram um homem sair correndo do lugar onde ocorreram os fatos, mas a promotoria ocultou isso ao juri e os coagiu a respaldarem a versão oficial. Quer dizer, Veronica Jones, Robert Chobert y Cynthia White apoiaron a versão da promotoria porque a promotoria lhes ameaçou.
Em 1996, Veronica Jones deixou escapar que a policia lhe havia coagido. Inicialmente, Jones tinha dito a política que viu um homem em fuga. Mas durante o julgamento, disse que não viu um homem em fuga e essas coisas prejudicaram Mumia. Agora, em uma declaração sob juramento, Jones admitiu que mentiu devido a ameaças da policia. Disse que dois tiras foram ve-la no cárcere pouco antes do julgamento de 1982 e lhe disseram que se seu testemunho ajudasse a Mumia, perderia seus filhos e seria presa. Quando Verônica Jones deu esse testemunho em 1996, a corte tomou represalias; foi detida devido a uma velha ordem de prisão.
A equipe de defesa, encabeçada por Leonard Weinglass, apresentou a declaração de Verônica Jones à Suprema Corte da Pensilvania, junto com uma moção para uma audiencia. Mas a corte enviou a documentação para Sabo, o mesmíssimo juiz que presidiu o complô contra Mumia! O resultado não surpreendeu ninguém: Sabo disse que as novas provas não eram válidas e rechaçou a petição de um novo julgamento.
Está claro que Robert Chobert e Cynthia White--duas testemunhas que disseram que Mumia matou Faulkner--receberam favores da promotoria.
Robert Chobert, um taxista branco, disse para a policia na mesma noite que o assassino era um homem grande e gordo (de mais de 200 libras) e que fugiu. Essa informação seria muito favorável para a defesa: Mumia era fraco, tinha graves feridas estava caido na calçada incapaz de fugir. Sem dúvida, Chobert mudou sua versão dos fatos durante o julgamento. O juri nunca foi informado de que estava em libertade condicional por um delito grave, e que por essa razão era vulnerável às chantágens da policia.
Cynthia White, testemunha chave da promotoria, corroborou a versão oficial. Mas segundo outras testemunhas, ele nem sequer estava presente no momento em que os fatos aconteceram, mas que chegou depois do incidente. Depois da prisão de Mumia prenderam Cynthia White várias vezes por prostituição. Cada vez que prendiam, mudava sua "versão" da morte de Faulkner. A policia a retirou do cárcere para testemunhar, e depois do julgamento lhe permitiram voltar a trabalhar como prostituta com proteção policial.
Em 1997, os advogados de Mumia apresentaram uma declaração sob juramento de outra testemunha do julgamento de 1982. Nessa declaração, Pamela Jenkins, uma ex-prostituta, dizia que a polícia a obrigou a mentir dizendo que Mumia tinha sido o pistoleiro; ela não estava no local na hora dos fatos; e não cedeu à pressão da policía. Também declarou que sua amiga Cynthia White (a principal testemunha da promotoria em 1982) confessou a ela que testemunhou contra Mumia porque a policía lhe a meaçou de morte. Na audiencia de junho de 1997, Sabo mais uma vez rechaçou a nova prova.
Outra testemunha, Dessie Hightower, não alterou sua versão de que Mumia não disparou, inclusive quando lhe submeteram a um detector de mentiras, mas não testemunhou em juízo porque a promotoria ocultou esses fatos da defesa. A quarta testemunha, William Singletary, disse primeiro que Mumia não fui o assassino. Mais tarde a policia o obrigou a assinar uma declaração de que não viu nada. Lhe ameaçaram tanto que teve que se mudar da Filadélfia antes do julgamento.
A "confissão" fabricada
Aquela noite, Faulkner baleou Mumia e os outros policiais o golpearam; depois o levaram ao hospital onde, segundo a promotoria, fizera uma espetacular confissão. Mas o agente Gary Wakshul, que escreveu em seu relatório que "o homem negro não havia feito nenhuma declaração", todos esses fatos ficaram ocultos durante o julgamento. Quando os advogados da defesa trataram de chamá-lo para testemunhar, a promotoria disse que ele estava viajanto em férias. Sabo não permitiu a realização do julgamento. Na realidade, Wakshul estava em casa e poderia ter testemunhado.
Em 1995, Wakshul chegou a dizer que não se "recordava" de nenhuma confissão porque estava "angustiado". Depois passou a admitir que "recordou" a confissão dois meses mais tarde, depois de reunir-se com o subpromotor McGill e outros policias. Não cabe dúvida de que essa "confissão" foi inventada pela policía.
O médico que atendeu a Mumia disse que ele não confessou coisa alguma. Dois meses depois, um segurança apareceu com a história de uma "confissão".
Falta de provas
Por outro lado, a promotoria afirmou que as provas balísticas incriminavam Mumia. Mas a policía não examinou nem a pistola de Mumia, nem suas mãos para saber se foi ele quem disparou. Tampouco demonstrou que a referida arma, foi a arma que matou o policial. Ademais, "perderam" o fragmento da bala que foi extraída pelo médico forense. A policía afirma que Mumia recebeu um tiro quando estava parado em cima de Faulkner, mas o informe do médico afirma que a bala percorreu uma trajetória de baixo para cima. Isso confirma o testemunho de Mumia de que Faulkner atirou nele.
Finalmente, o acusaram e condenaram falsamente: houve uma conspiração para rechaçar jurados, apresentar testemunhos chôcos, ocultar provas e impossibilitar uma defesa adequada; depois o condenaram a muerte por suas crenças e atividades revolucionarias.
A luta contra a execução de Mumia
Em 2 de junho de 1995, o governador da Pensilvania, Tom Ridge, assinou uma ordem de execução fixando inclulsive a hora: às 10 da noite de 17 de agosto de 1995. O advogado de Mumia, Leonard Weinglass, deu início a uma Apelação de Recurso Post-Condena (PCRA) para impedir a execução e realizar um novo julgamento. Anexou um documento de 300 páginas que, segundo Weinglass, demostrou: "... sem sombra de dúvida que Mumia, que se declarou inocente desde o primeiro momento, foi vítima de um processo judicial políticamente motivado e racista, que suprimiu provas que comprovariam sua inocencia". Ao mesmo tempo, os advogados entraram com uma Moção de Recusa para que não se permitisse ao juiz Sabo avaliar aa apelação de Mumia. Sabo rechaçou a moção, apesar das muitas provas apresentadas pelos advogados de seu claro prejuizo contra Mumia. Apesar de tudo isso, os advogados de Mumia apresentaram muitas provas que demostraron que merece um novo julgamento. Mas tres días depois de terminada a audiencia, Sabo rechaçou a petição de um novo julgamento. E a orden de execução continua de pé.
Um amplo e resoluto movimento internacional lutou bravamente contra a execução e Mumia chegou a a ponto de ser um símbolo da injusticia do sistema. Manifestações foram feitas em muitas cidades dos Estados Unidos e de outros países. Artistas, escritores e outras figuras proeminentes o defenderam públicamente. E nos guetos e bairros, um movimento resoluto demonstrou força ao se escorar na força dos oprimidos. Finalmente, o poder do povo obrigou o governo a voltar atraz e cancelar a execução. Mas, todavia, ainda querem matá-lo. Nas palavras de Mumia: "No momento não estou sob uma ordem de execução, mas continuo sentenciado a morte. Portanto, permaneço no inferno".
Desde as masmorras, Mumia esgrima sua pluma; denuncia os crimes do sistema e inspira o povo. Seus inimigos jamais pararam em suas tentativas de sufocar sua voz. Em 1994, a rede nacional de radio pública (NPR) anunciou que iria transmitir os comentarios de Mumia, mas se dobraram diante das pressão de policiais e politiqueiros. Quando Mumia encontrou uma editora para publicar seu livro Live from Death Row, a policía lançou uma campanha para impedir sua publicação, mas fracassou. *****
Em 29 de outubro de 1998, em uma decisão unânime, a Suprema Corte da Pensilvania rechaçou a petição de um novo julgamento, o qual demonstra claramente que o governo tomou uma decisão política de seguir adiante com o plano de executar Mumia. É uma clara declaração, que redobrarão os ataques contra Mumia.
Cabe ao povo salvar sua vida: há que se dar uma poderosa resposta, há que dizer com toda clareza: NÃO PERMITIREMOS QUE EXECUTEM MUMIA ABU-JAMAL!
É necessário que milhões de pessoas comprendam que não devem ficar de braços cruzados diante de uma execução política. Há que se ganhar esta batalha. Não permitiremos que o sistema roube a vida de nosso companheiro Mumia porque ele é muito valioso para os oprimidos e para aqueles que anseiam por justiça.
PAREM A EXECUÇÃO DE MUMIA ABU-JAMAL!
Este artigo foi publicado originalmente em "Obrero Revolucionario", 25 de abril, 1999; publicação editada eM Chicago, EE.UU.

O Barbeiro e o Açogueiro


O filme do barbeiro Sweeney Todd, Johnny Depp, é preso injustamente por determinação do juiz Turpin, Alan Rickman. Ao sair da cadeia, ele coloca em prática a sua vingança, reabrindo a barbearia e se tornando o Barbeiro Demoníaco de Fleet Street, porém seus clientes sempre desaparecem. Mrs. Lovett, Helena Bonham Carter, é uma famosa quituteira que se une ao barbeiro. Na verdade, ela é uma serial killer que usa os restos mortais de suas vítimas para assar tortas que viram a sensação de Londres. Com a nova parceria, os ingredientes são fornecidos por Sweeney Tood. Vi muita gente correr do cinema, pelo suco de beterraba que escorre da cadeira do barbeiro até as valas da velha Londres. Jonhy Deep dá um show de atuação, assim como em Piratas do Caribe e o Libertino. O filme é um ótimo musical, gótico. Marcado por contrastes de sua vida passada, onde tudo era mais claro, barker verbaliza ao lado de Helena e, a vida que ele adotou, agora marcada pelo sombrio.
O filme do barbeiro se assemelha a do açougueiro que adorava fazer lingüiça. O chamado Crime da Rua do Arvoredo é um episódio que ocorreu em 1864, na cidade de Porto Alegre.
Um sujeito chamado José Ramos, que era na verdade um inspetor de polícia de Santa Catarina, teria comprado ou alugado uma casa na antiga Rua do Arvoredo, atual Rua Fernando Machado, de um sujeito chamado Carlos Klaussner, antigo dono de um açougue que funcionava no mesmo local.
Consta que o tal homem gostava de música, andava bem vestido, enfim, era, como se dizia na época, um boa-vida. Tempos depois ele conheceu Catarina Palsen, com quem passou a viver, e a praticar os tais crimes.
Ao que tudo indica, ela, Catarina, de origem húngara, e de grande beleza, atraía as vítimas para a tal casa-açougue, para que fossem mortas por José Ramos, esquartejadas e, com a carne, eram fabricadas lingüiças, vendidas no comércio de Porto Alegre.
Nesse ponto "inicia a lenda", pois os processos criminais a que José Ramos respondeu, existem, mas neles não consta que as vítimas eram transformadas em lingüiça. Segundo o historiador Décio Freitas, autor do livro O Maior Crime da Terra (Editora Sulina, 1998), os processos estão incompletos, faltam folhas, é todo manuscrito, e, se realmente a história é verdadeira, nunca se saberá, pois somente as folhas faltantes nos autos é que poderiam dar algum indício sobre a veracidade das tais lingüiças, ou não. O fato é que hoje existe o crime, porém as provas sobre as lingüiças fabricadas com carne humana foram consumidas no decorrer do processo e o passar dos anos. Foram quatro vítimas, contando com um cachorrinho preto e um garoto de 14 anos, todos encontrados no porão da casa do casal José Ramos e Catharina Palsen. Um dos cadáveres havia sido retalhado com a cabeça e membros separados do corpo. A polícia acreditava que duas das vítimas haviam sido mortas por causa de seus bens. Na época, Porto Alegre tinha um grande número de imigrantes, sendo uma das vítimas um alemão, e por isso, falavam-se várias línguas diferentes. Talvez seja daí que tenha surgido a lenda e, que ela tenha se espalhado, que era feita lingüiça dos restos mortais das vítimas e que era vendido num movimentado açougue da cidade. Porém, nada sobre essa lenda, constam nos arquivos da polícia. Esse crime, além de mexer com a imaginação das pessoas provocou também uma grande reviravolta e repugnância na vida das pessoas.

Luiz Vagner, o Guitarreiro


A década de 70 foi importante pelo surgimento de novos grupos musicais. "O tom reivindicatório presente nas letras da música negra norte-americana influenciaram o samba, alterando seu ritmo, dando origem ao chamado samba/swing ou o samba-rock, em Porto Alegre". Esta mudança musical, é bem representada pelo grupo Pau-Brasil (Bedeu, Leco Teles, Alexandre, Lequinho, Nego Luis e Cy) e pelo "guitarreiro" Luiz Vagner. A partir desa proposta, ganhou o Brasil graças ao trabalho feito por Bedeu e companhia, os compositores negros "começam a dar preferencia à batida de raiz africana, fonte de múltiplas diversidades sonoras e criativas". A figura indissociável do movimento samba-rock ou swing. Luiz vagner vem influênciando várias gerações de musicos brasileiros. Natural de Bagé, vive a mais de três décadas em São Paulo, onde desenvolve intenso trabalho como músico, compositor, arranjador e produtor musical. Luiz Vagner Lopes, o "Guitarreiro", o Doutor Swing, começou sua carreira musical aos nove anos de idade tocando bateria na orquestra Copacabana Serenader, do Maestro Vicente Lopes, seu pai, em Santa Maria. Em 1962, já em Porto Alegre, formou o conjunto "Os Jetsons", com repertório de música instrumental. Em 1966, surgiu "Os Brasas", que foi contratado pela TV Excelsior de São Paulo. Na Paulicéia, seu talento foi reconhecido e logo passou ser um dos músicos de estúdio mais requisitados da época. Com a extinção de "Os Brasas", na década de 70, Luiz Vagner se tornou produtor, arranjador e compositor da RCA Victor. No inicio da década de 70, lançou o compacto simples "Moro no fim da Rua" (Continental). Seu primeiro LP sairia em 1974, "Luiz Vagner Lopes Simples". Seguiram-se "Guitarreiro" (1976), "Fusão das Raças" (1978), "Pelo Amor do Povo Novo" (1980). Em 1985, apresenta o seu primeiro disco reggae, O Som da Negadinha, com a Banda Amigos Leais". Em 1987, converteu-se ao Budismo "Nitirem Daishonin". Nesta Fase, produziu dois discos independentes: "Cilada" e "Vai Dizer Que Não Me Viu". E, quase trinta anos depois, voltou a apresentar-se no Araujo Viana quase lotado. Integrou a primeira formação da Banda Zé Pretinho, de Jorge Bem Jor, em 1981. Bem Jor o homenageia com a múcica "Luiz Vagner Guitarreiro". Seus mais recentes trabalhos foram lançados em 2202: o CD "Swingante", uma coletânea de seus maiores sucessos, e o "Brasil Afro-Sul-realista" (Paradox), que como diz Luiz Vagner, "(...) Tem resgate, tem o agora e tem o futuro, compreensão e aceitação da maravilhosa confluência oculta da nova mestiçagem (...)" O músico gaúcho é conhecido por ser o criador de levadas e batidas inovadoras. Já participou de festivais franceses, como Jazz Vienne, Festival de Vaux Sur Seine, Festival de Auberil-Liuers. Fez duas temporadas na Rede Méridien de Hotéis na África e em Paris e uma no Cassino D´Evian na França. Ganhou titulo honorífico de Cidadão de Porto Alegre, a Comenda Carlos Gomes e o Prêmio Lupicinio Rodrigues.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Redução da Redenção


Helen Lopes
Em outubro de 1807, quando Porto Alegre era uma vila junto ao Guaíba, o governador Paulo José da Silva Gama oficializou a doação da Várzea do Portão ao município. Era uma planície alagadiça que começava na saída da vila próxima ao atual Viaduto Loureiro da Silva. Media mais ou menos 70 hectares.
Serviu de descanso para tropeiros, cavalos e gado, tradição herdada dos portugueses. “Eram locais de rocio, como em Lisboa”, ensina o historiador Sérgio da Costa Franco. Em 1827, os militares já praticavam exercícios ali e não demorou para iniciarem a construção do Casarão da Várzea, em 1872, para abrigar a Escola Militar. Começava o achaque do parque.
Em 1896 veio a instalação da Escola de Engenharia, em frente a atual Praça Argentina. Ainda no final do século XIX, o lote entre a José Bonifácio e a Venâncio Aires foi vendido. O terreno do Hospital de Pronto Socorro também foi parte da Redenção, assim como o Instituto de Educação Gal. Flores da Cunha.
Com a Exposição de 1935, em homenagem ao centenário da Revolução Farroupilha, realizaram primeiro grande ajardinamento para a inauguração oficial. Foi quando virou área de lazer.
Bastante modificado em seus limites, o parque começou a perder espaço interno. Em 1939, criou-se o Estádio Ramiro Souto e, em 1964, ergueram o Auditório Araújo Vianna. Assim a Várzea diminuindo até chegar aos 37 hectares atuais.
Mas os limites oficiais não correspondem à área de circulação. Ao lado do Mercado Bom Fim fica a Sociedade Esportiva Recanto da Alegria, ou Soreal, que é um clube privado para amantes da bocha e outros jogos. E até mesmo o parque de diversões está numa área que foi destinada provisoriamente, sob a promessa de remanejo que nunca aconteceu. “Somando essas partes, a área de uso comum está muito restrita”, avalia Roberto Jacubasko, membro do Conselho de Usuários.
Uma história negra

O nome Redenção foi uma homenagem da Câmara de Vereadores à libertação dos escravos, tema no qual o Rio Grande do Sul foi um estados pioneiros, em 1884. “Era local de passagem no deslocamento para Colônia Africana que se formou no que hoje é o bairro Rio Branco”, relata o historiador Sérgio da Costa Franco.
Ele alerta que não encontrou em suas pesquisas vestígios de acampamentos de escravos fugidos ou celebração pela alforria, histórias amplamente difundidas oralmente. O professor Oliveira Silveira, que não é historiador, mas tem anos de atuação no movimento negro, observa que eram descendentes africanos que descansavam nos campos da Várzea. “Ou quem eram os carreteiros e ajudantes na época, senão os escravos?”
Silveira também recorda que além das famosas festas na Igreja do Bom Fim, o local era um ponto de referência devido ao “Candombe da Mãe Rita”, situado na rua da Fonte, atual Avaí. “A casa abrigava festas e celebrações não necessariamente ligadas à religião afro.”
Nomes
Campo do Bom Fim – Primeira denominação oficial, dada em 1870, em alusão a igreja construída na Osvaldo Aranha.Campo da Redenção – Em homenagem a libertação dos escravos em 1884.Parque Farroupilha – Nome contemporâneo que marca a inauguração do parque em 1935.

Joaquim Nabuco Vira Point na Noite Cidade Baixa


[16 / 05]
Alexandre Haubrich
A saturação comercial de ruas como Lima e Silva, José do Patrocínio e República deflagrou um movimento – iniciado dois anos atrás na João Alfredo – de expansão dos bares para vias marginais. Calçadas das ruas Joaquim Nabuco, Lopo Gonçalves e outras, antes pouco cotadas, transformam-se em pontos de intenso movimento.
Gerente da lanchonete Castanhas, aberta em fevereiro de 2007 na Joaquim Nabuco, Laura Oliveira vê na migração uma tendência inevitável. "Daqui a alguns anos, o comércio vai todo para as ruas secundárias. Compare a João Alfredo de pouco tempo atrás: hoje ela é quase uma Lima e Silva", observa.
Desde que abriu as portas, a gerente do Castanhas viu se multiplicarem os empreendimentos à sua volta. Apenas na quadra entre José do Patrocínio e Lima e Silva, já estão instalados um pequeno bar vendendo drinques, um pub e até um espaço cultural noturno.
A ampliação preocupa moradores, que reclamam principalmente da falta de fiscalização nos estabelecimentos. "Não somos contra bares, mas tem que ser tudo melhor regulamentado e realmente fiscalizado. Hoje, há uma total ausência do poder público no bairro", critica o presidente da Associação dos Moradores da Cidade Baixa, Marco Antônio Souza.
A preocupação com a segurança também é ponto importante para ele. "A aglomeração de pessoas traz junto a violência. À noite na Cidade Baixa, o policiamento é inexistente", observa.
Os bares da Joaquim Nabuco estão sempre cheios. Mas os responsáveis afirmam que o relacionamento com os vizinhos é garantido com horários reduzidos e proteção acústica. O Castanhas, por exemplo, fecha as portas à meia-noite, mesmo nas sextas-feiras, quando acontecem os saraus na casa. E no Tenório Espaço Cultural, onde os amantes do vinil podem ouvir o som característico dos LPs madrugada adentro, houve o cuidado de se fazer um isolamento acústico.
"Essas medidas são fundamentais, mas tem que haver um controle da prefeitura. A João Alfredo não existe mais e a Joaquim Nabuco vai pelo mesmo caminho", reitera Marco Antônio.

A Tragédia de Felipe Klein


Ele tinha tudo para ser feliz. Juventude, saúde, talento, dinheiro, o amor de belas garotas. Mas Felipe construiu para si um mundo dark e animal. Tatuou demônios no peito - e foi vencido por eles.
Na noite do sábado 17 de abril, um corpo de aparência incomum foi levado pela polícia ao necrotério da Avenida Ipiranga. Tinha duas protuberâncias esquisitas na testa. O médico-legista abriu o couro cabeludo, abaixou a pele até o nariz e se deparou com algo muito raro: dois chifres implantados na carne, feitos de teflon. Cada um era quase do tamanho de uma barra de chocolate Prestígio.
O cadáver estava todinho tatuado. Trazia argolas de metal nos genitais, mamilos, lábios, nariz e nas orelhas - e estas tinham orifícios da largura de um dedo.
De entre os chifres saíam três pinos metálicos pontiagudos.
A língua fora alterada: cortada ao meio e já cicatrizada, parecia a de um lagarto.
É claro que Felipe Augusto Klein, morto aos 20 anos, nem sempre teve uma aparência assim.
Nasceu uma criança saudável. Era o caçula dos cinco filhos do casal Lili e Odacir - o pai é um político influente, quatro vezes deputado federal, ministro de FHC e atual secretário estadual da Agricultura.
Fotos de Felipe no álbum da família mostram a criança típica da classe privilegiada: um menino de cachinhos loiros, olhos azuis, bochechudo, limpo, bem vestido – e, às vezes, sorridente.
Foi na adolescência que ele começou a se mutilar com tatuagens, cirurgias e implantes. Pouco antes de morrer preparava-se para botar nas costas uma pele de lagarto e rasgar sulcos no rosto, para pintar neles uma máscara dos maoris, nativos da Nova Zelândia.
Em sua curta vida Felipe radicalizou em “body modification”, a expressão inglesa dos adeptos de mudanças corporais. Nos últimos três anos, todo mês gravou alguma figura nova no corpo, ou se aplicou algum piercing. Para combater as dores provocadas por agulhas e bisturis ele se automedicava.
As dores físicas eram fichinha se comparadas ao espírito atormentado de Felipe. A mãe, as duas últimas namoradas e os dois amigos mais próximos o descreveram como um jovem patologicamente sensível a tudo que o rodeava – e em especial, ao alcoolismo do pai.
“Eu não sou desse mundo” era sua frase predileta. Felipe disse que se sentia assim para dona Lili, para Helena, seu grande amor, para Karen, sua última namorada, para Cristiano e Xande, dois tatuadores tão amigos que cada um segurou uma alça do caixão, e para Virgínia, uma amiga que foi ao enterro chorar com a família.
Não dá para saber quando foi que ele começou a se sentir desse jeito. A mãe contou que “cedo” a família percebeu nele “alguma coisa diferente”. Por isso, “desde pequeno recebeu tratamento psicológico”. Nos dois últimos anos esteve “sob o controle de um psiquiatra”.
Os médicos diagnosticaram um mal que surge na adolescência. O “transtorno afetivo bipolar”, ou “psicose maníaco-depressiva”. Felipe vivia na gangorra entre depressão e euforia, quase sempre no lado da baixa. Era tratado com um coquetel de antidepressivos.
Na literatura médica, a origem do mal é incerta. Pode ser genética, ou despertada por um trauma. O certo é que “ele nunca foi uma criança feliz”, afirmou a mãe. Ela não sabe explicar como, entre seus cinco filhos, apenas Felipe teve a sina. “O mundo dele era seu quarto e seus bichos, não gostava de jogar futebol, nem de sair”.
Felipe passou a infância em Brasília, onde seu divertimento era colecionar gnomos, seres imaginários de uma lenda nórdica. Na adolescência, já em Porto Alegre, onde terminou o secundário no Colégio Sevigné, aumentaram seus sintomas depressivos.
Por alguns meses fez parte da tribo urbana dos góticos, jovens que se vestem de negro, assumem um ar deprê e desprezam o resto da sociedade – mas se afastou deles porque o pessoal o considerava excessivamente... gótico.
Quando saiu dessa tribo de humanos, ele se voltou mais ainda para seus bichos. Passava dias trancado no confortável quarto que ocupava no amplo apê da família, no edifício El Greco, onde morava com a mãe, uma tia e mais de 20 animais.
No seu minizôo tinha gatos com pedigree, cobras importadas, filhotes de jacaré, tartarugas e lagartos. “Ele gostava mais de animais do que de gente”, contou Helena, citando outra frase ouvida dele. Tal paixão o levou a estudar Veterinária na Ulbra, mas logo se desinteressou.
Paixão permanente só por tattoos. A primeira ele fez aos 11, levado pela mãe. Era um sol, na coxa direita. Na adolescência evoluiu de tatuagens inocentes para figuras demoníacas e implantes radicais – já então contrariando os pais.
Pesquisando na internet, Felipe virou autoridade em body modification. Quando começou a fazer experiências no próprio corpo ele apareceu na RBS TV, demonstrando as técnicas. Vaidoso, cortejou cineastas para tentar exibir seu visual em filmes. Já na fase da modification total suas imagens acabaram exibidas ao grande público, mas no Ratinho, numa comparação grotesca com um porco.
Seu visual o transformou numa celebridade na web. No pequeno círculo dos tatuadores ele chegou a jurado de competições internacionais.
Quem o conhecia sabia que era determinado e não temia a dor. Ele mesmo se aplicava alguns piercings, aquelas argolas metálicas que usava no corpo, cuja fixação é um pequeno suplício.
Quando botava na cabeça que faria alguma modification ia em frente. Foi dele próprio a idéia dos chifres. “Eu tentei dissuadi-lo dizendo que um dia ele se arrependeria e que então seria doloroso retirá-los, mas ele não ouvia ninguém”, lembrou dona Lili.
Com a decisão tomada, ele estudou os passos da operação em livros de Medicina. Depois, orientou o tatuador que fez a cirurgia.
Nos últimos meses Felipe alimentou a bizarra fantasia de se transformar num animal como aqueles que amava – a idéia era virar um lagarto, aplicando sob a pele das costas bolinhas de silicone que lhe dariam um aspecto enrugado. A língua já estava pronta, dividida numa operação feita por um dentista de Taquara.
No final de março Felipe anunciou a meta de implantar a máscara maori e virar lagarto, coisas que o deixariam irreconhecível. Ninguém duvidou da possibilidade. Mas era tarde. Ninguém pôde mais fazer coisa alguma por ele, exceto assistir sua dolorosa renúncia à humanidade.

Polícia não consegue depoimento do pai
A primeira pessoa a ver Felipe morto foi Tadeu, porteiro do edifício Palácio, onde morava Odacir Klein. Ele contou que estava no saguão quando ouviu “um grito e um baque”. Caminhou até o muro que dá para o edifício Santa Maria e viu o corpo do rapaz estatelado no depósito de lixo do prédio vizinho.
Eram 18h56min do sábado 17 de abril. Tadeu chamou a polícia.
Quase três meses depois, a polícia ainda não tinha concluído o inquérito para apurar se Felipe se atirou, ou caiu, ou foi jogado do apto 903, o quarto e sala do pai no nono andar do Palácio, no 888 da Duque de Caxias.
Só pai e filho estavam no apartamento na hora da morte - e o pai não deu depoimento. Alguns jornais divulgaram que alguém vira Felipe no parapeito momentos antes da queda. Tal testemunha confirmaria suicídio, mas ela nunca existiu.
Quem esteve muito próximo da cena, mas também nada viu, foi Lucas, um estudante que mora no oitavo andar do prédio vizinho, quase janela com janela com o apê onde estava Felipe. Ele apenas ouviu o mesmo grito e baque escutados pelo porteiro.Por determinação superior, a investigação da morte de Felipe não foi para a delegacia do bairro, como sempre acontece com cidadãos comuns, mas sim para a especializada em homicídios.
O delegado Márcio Zachello, encarregado do inquérito, disse que “a investigação contempla todas as possibilidades”, mas trabalha mais com a hipótese de suicídio. Ele promete concluir a apuração "em breve". Três são as principais evidências de suicídio. A primeira é que o corpo de Felipe foi encontrado a 11 metros de distância do prédio do Palácio, sinalizando que ele teria tomado impulso.
A segunda foi a constatação de que o pai estava quase inconsciente na hora da tragédia, bêbado demais para qualquer ação violenta. Examinado pelo Departamento Médico-Legal, ele tinha 26 decigramas de álcool por litro de sangue, numa escala onde seis é o limite legal da embriaguês.
A terceira é o depoimento da namorada, a estudante Karen, 20 anos. Ela disse às autoridades que os dois tinham um pacto de suicídio. Karen desistiu da idéia quando eles discordaram sobre formas indolores de morrer – Felipe gostava de se flagelar.
Ainda faltam duas peças para a conclusão do inquérito. O laudo da perícia feita no local pelo Instituto de Criminalística e o depoimento do pai. Ele já disse a familiares e amigos que não se lembra de nada do ocorrido naquela noite.
Filho cuidava de Odacir
Era Felipe quem cuidava do pai quando este bebia demais. “Meu filho se preocupava com o que pudesse acontecer com Odacir”, contou dona Lili. “Ele sempre tentava protegê-lo”.
O drama do alcoolismo foi vivido em segredo pela família durante anos, até ser exposto em rede nacional de TV, em 1996. Odacir, então ministro dos Transportes, voltava de uma festa com o filho mais velho, Fabrício, quando este atropelou e matou um operário, em Brasília. Os dois fugiram sem prestar socorro à vítima, mas alguém anotou a placa do carro e eles foram descobertos. O ministro estava embriagado. Com a repercussão do caso ele renunciou ao cargo.
No últimos anos Odacir fez vários tratamentos, alternando períodos ruins com outros de sobriedade. No ano passado, se separou da mulher e foi viver na mesma rua, a um quarteirão. Quando estava em dia ruim, assessores levavam documentos oficiais para que ele os assinasse em casa.

Última hora
Passava das 5 da tarde daquele sábado quando Felipe saiu do apê da mãe, atravessou a Praça da Matriz e caminhou até o do pai. Àquela hora a família sabia que Odacir estava alcoolizado - e o filho cumpriria pela última vez a tarefa de cuidar dele.
“Quando meu filho saiu eu fiquei rezando o terço libertário. Pedi a Jesus para proteger e libertar os dois”, disse dona Lili – ela não derramou uma lágrima sequer durante 40 minutos de entrevista, numa manhã de junho.
Felipe chegou no edifício do pai e o esperou no saguão. Odacir apareceu pouco antes da seis, cambaleando. Caiu no portão. O zelador Gérson e o porteiro Tadeu tiveram que carregá-lo.Os dois levaram Odacir para o elevador. Na curta viagem, Gérson notou que ele se contorceu de dor, provocada por um forte beliscão que Felipe lhe aplicara nas costas.
“Eu disse para ele parar de judiar do doutor Odacir”, contou Gérson. Felipe rebateu: “Ele só nos faz passar vergonha”. A frase do rapaz com o rosto desfigurado soou estranha para o zelador: “Vinda de quem vinha, parecia piada, mas notei que ele estava muito nervoso e fiquei quieto”.
No apê, Felipe ordenou que os dois atirassem o pai no chão, mas Gérson não aceitou: “Mandei ele abrir a bicama da sala e o deixamos ali”.
O que aconteceu depois não teve testemunhas. Vizinhos ouviram pai e filho discutindo, gritos abafados por portas fechadas. Às 18h56, a queda.
A polícia chegou logo depois. Odacir aparece sem camisa nas fotos do inquérito, descabelado. Num relatório do SAMU os paramédicos atestaram que ele estava “com hálito etílico, fala arrastada e movimentos desorientados”, mas sem ferimentos, exceto pequenos arranhões.
Uma parente passou pela rua, viu o rebuliço, ouviu o zum zum zum e correu para a casa de dona Lili – ainda sem saber quem tinha morrido. “Eu pensei que tinha sido o Odacir”, disse depois dona Lili. “Quando entrei na sala e o vi de pé, entendi que era Felipe”.
Ela ainda teve coragem para ir à janela e olhar para baixo. O filho estava de bruços, com as pernas quebradas, os pés torcidos para fora e os braços abertos em cruz.
Serenidade
Dona Lili disse que já temia que o filho se matasse e mostrou dois sinais: “Uma semana antes ele me deu uns óculos que eu gostava e distribuiu os bichos”. Tutankamon, o gato persa preferido, e Corn Snake, uma cobra americana, foram para o amigo Xande, tatuador em Camaquã. A mãe disse que agora se sente serena porque “ele sempre teve tudo o que queria, toda a ajuda que precisava. Não adiantou. Acho que ele estava muito avançado para nós, noutra dimensão”.
Ela buscou apoio num grupo de pessoas que também perderam parentes: “Com eles a gente pode falar, explicar e entender tudo”.
Dona Lili e o resto da família decidiram armar uma barreira de silêncio. Todos temem que o incidente possa prejudicar a candidatura do irmão Fabrício à Câmara de Vereadores.
Recuperado do choque, Odacir retomou o trabalho, até viajou para a China na comitiva do governador. A tragédia uniu outra vez Lili e Odacir - ele voltou para casa, nunca mais pisou ao apê onde Felipe morreu.
Rebeldia no enterro
Felipe fez parte de um grupo gótico freqüentador do estúdio Tattoo Company, da rua Duque. A musa do pessoal era a pintora Sílvia Motosi, uma Frida Kahlo dos pampas, cujos trabalhos estão expostos este mês na Usina do Gasômetro - amiga de Felipe, tatuada no mesmo estúdio e pelo mesmo tatuador, ela se matou em 2002, do mesmo jeito: saltando da janela do apê da família.
Quando menino Felipe era como um mascote da turma, composta por gente bem mais velha. Na adolescência era cliente compulsivo. Finalmente, quando já estava todo tatuado, virou garoto-propaganda da casa. O pessoal de lá elogiava muito seu visual - ele se sentia estimulado e ia cada vez mais fundo.
Um tatuador do estúdio era seu confidente. Quando não estava se tatuando, Felipe aparecia com amigos para quem oferecia os serviços do estúdio. Por algum tempo a mesma turma se reuniu no atelier da arquiteta Roberta, uma notável na tribo, para discussões sobre body modification, universo gótico e a arte da tatuagem, considerada por eles “tão efêmera quanto a vida”.
Ainda adolescente ele serviu de modelo num calendário gótico. Na última página Felipe exibe o corpo com a palavra “alone” (sozinho), enquanto abraça a arquiteta - ela hoje tem 32 anos, vive na Áustria.
Uma série de fotos feitas pela produtora de moda Marion Velasco, com a participação de modelo Priscila Burman, é emblemática do visual chocante de Felipe mesmo antes do implante de chifres.
Seu corpo estava coberto por tatuagens aparentemente sem sentido. A mais dramática era uma face demoníaca no peito. Exibia cemitérios, dragões, flores, máscaras, frases completas – uma delas, em alemão, dizia “solidão para sempre”.
Para quem se sentia sozinho em vida, Felipe teve um enterro superconcorrido. Com a presença do governador Germano Rigotto, do senador Pedro Simon e até de adversários políticos do pai, como o ex-governador Alceu Collares, a cerimônia acabou atraindo centenas de pessoas e muitos jornalistas – foi tudo, menos discreta.
Os amigos do lado gótico dele não gostaram de ver tantos políticos no velório. Virgínia contou que um grupo de tatuadores, ela junto, “se posicionou entre o caixão e os políticos durante alguns minutos, tenho certeza que Felipe gostaria do que fizemos para protegê-lo”.
As diferenças entre família e tatuadores apareceram também no convite para enterro, com dois textos. Um falando que o menino foi acolhido por Jesus e Maria. O outro dizendo que “no mundo de Felipe não pode haver maldade”. Houve um pequeno momento de constrangimento entre as duas turmas, episódio relatado por Virginia. A irmã dele, Fernanda, estava fazendo um agradecimento público aos tatuadores, dizendo “vocês eram sua verdadeira família”, quando foi brecada pela mãe: “Não filha, ele nos amava, nós é que éramos sua família” - dona Lili falou com a autoridade de quem mais o conhecia.
Felipe levou consigo algumas de suas bizarrices. No dedo anular direito, um anel em forma de esqueleto. No pescoço, uma corrente com seu inseparável bisturi. Virgínia meteu um broche no caixão, em sinal de amizade eterna. Karen, a última namorada, botou uma vaquinha nas mãos dele, certa de que seu amor só estaria feliz na companhia de algum animal.
Felipe foi enterrado no cemitério São Miguel e Almas. Virgínia reclamou da aparência prosaica do túmulo, queria “alguma coisa medieval”, que ela julgava seria mais ao gosto gótico do morto.
A tumba acabou adornada por um singelo bibelô de gesso, com a figura de um anjo montado num escorpião. A mãe mandou gravar uma frase na lápide, citando o martírio de Jesus no Calvário: “Nos precedestes na luz”.
Amor no Rio de Janeiro foi raro momento de paz
Felipe conheceu o amor. Foi em outubro de 2001, numa convenção de tatuadores, em São Paulo. Aos 18 anos, branquelo e magro, 1m80 e ombros largos, ele atraiu Helena, sete anos mais velha, branquela e cheinha, 1m66. Ela só se aproximou dele dias depois, no protocolo jovem: via email.
Já em Porto Alegre, ele respondeu dizendo que também a tinha notado. Pediu uma imagem para conferir. E gostou da mulher que não fazia o tipo deprê. Carioca criada no Leblon, filha de uma professora de Literatura Francesa e formada em Publicidade, ela trabalhava numa produtora de filmes. Superocupada, só teve tempo de vir a Porto Alegre na virada de 2002. Na noite de Ano Novo os dois ficaram. Ela jura que “foi um sonho”.
Helena se disse atraída “porque ele era muito bonito antes das modificações”, além de ser “mais sério do que muita gente mais velha”. Ela o achou então “longe de ser deprê” e que seu figurino “era menos extremo”. No carnaval Felipe foi pro Rio.
Por alguns dias Helena ia trabalhar com Felipe a tiracolo. Ele ficava rolando nas locações, esperando pelo tempo livre dela. Os dois tomavam muito sorvete na lanchonete Chaika, em Ipanema. Ela engordou alguns quilinhos, ele não, ela acha que é porque ele “era magro de ruim”.
Helena estava apaixonada. Elogiou Felipe como “tudo, menos um amador”. Ela topou mudar-se para Porto Alegre. Em março de 2002, veio morar com ele, a mãe, a tia e a bicharada dele. “Foi um tempo legal. A gente via desenhos animados, assistia filmes sobre Medicina no Discovery. Às vezes, ele inventava coisas na cozinha, era bom em massas”, recorda a moça.
O relacionamento foi crescendo e as diferenças aparecendo. Helena: “Ele dizia que queria ser cada vez menos humano. Sentia ódio da raça humana. Detestava pessoas gananciosas e as que buscam notoriedade”. A ex-namorada lembra que “uma coisa muito dele era sofrer quando via gente fazendo coisas ruins, uns passando por cima de outros para aparecer”. Ela dizia “esquece isso, vamos nos divertir”, mas parece que ele “não era disso, levava as coisas até o fim”.
Mais Helena: “Eu acho que é por isso que ele se matou. Ele queria ser o menos humano, mas ao mesmo tempo encarava todos os problemas. Se você encara, como é que vai sobreviver ? O suicida é aquele que não vê uma saída. E Felipe era assim”.
Ela disse que ele demonstrava “grande preocupação com o pai. Quando ele sofria suas crises de alcoolismo, Felipe era o mais prestativo. Tomava a iniciativa de ajudá-lo, mas na volta se via que ele sofria. Ficava quieto num canto, muito triste”.
Num momento de depressão Felipe disse a Helena que gostaria de ser internado. “O psiquiatra não concordou e receitou Lexotan”, conta a ex-namorada. Depois de um ano trancada no quarto com Felipe, ela foi embora: “Nenhuma história de amor dura para sempre” e “eu precisava trabalhar” foram suas razões.
Nos primeiros meses separados ele foi muito ciumento. “Eu passei a ficar em casa, no Rio, para não desagradá-lo. Mas depois ele entendeu e me disse para desencanar, não queria nada ruim assim no nosso relacionamento”.
Felipe também seguiu adiante. No início, queixou-se para Cristiano da separação. Depois arrumou outra namorada, mas reclamava que ela “pegava no pé por picuinhas”. Não queria ficar sozinho e seu lema passou a ser “antes mal acompanhado do que só”. Nunca escondeu sua paixão e a falta que Helena lhe fazia.
Depois da morte, Helena foi chamada pela família – ela não o vira durante a fase final de modificações corporais. Um carro oficial foi esperá-la no aeroporto e o enterro atrasado para sua chegada.
Virgínia disse que a viu no caixão, serena, repetindo baixinho para o morto, com ternura: “Me desculpe. Se eu não tivesse ido embora você ainda estaria vivo”.
Agora é tarde, Felipe Augusto foi na frente. Nos precedeu na luz.
Renan Antunes de Oliveira

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Simone, Nina Simone


Nina Simone (Tryon, 21 de fevereiro de 1933 — Carry-le-Rouet, 21 de abril de 2003) foi uma grande pianista, cantora e compositora americana. O nome artístico foi adotado aos 20 anos, para que pudesse cantar Blues, a “música do diabo”, nos cabarés de Nova Iorque, Filadélfia e Atlantic City, escondida de seus pais, que eram pastores metodistas. “Nina” veio do Espanhol (Niña: menina), e “Simone” foi uma homenagem à grande atriz do cinema Francês Simone Signoret, sua preferida.
Nina Simone também se destacou e foi perseguida por ser negra e por abraçar publicamente todo tipo de combate ao racismo. Seu envolvimento era tal, que chegou inclusive a cantar no enterro do pacifista Martin Luther King. Casada com um policial nova-iorquino, Nina também sofreu com a violência do marido, que a espancava.
Em um breve contato com sua obra, aqueles que não conhecem percebem logo a diversidade de estilos pelos quais Nina Simone se aventurou, desde o gospel, passando pelo soul, blues, folk e jazz. Foi uma das primeiras artistas negras a ingressar na renomada Julliard School of Music, em Nova Iorque. Sua canção “Mississipi Goddamn” tornou-se um hino ativista da causa negra, e fala sobre o assassinato de quatro crianças negras numa igreja de Birmingham em 1963.


After Your´ve Gone

Nina Simone


Agora ouça, meu amor, enquanto eu falo

Como você pode dizer que vai embora?


Não diga que nós devemos nos separar

Não quebre meu coração machucado

Você sabe que me amapor tantos anos

Ame-me noite e dia

Você não consegue ver minhas lágrimas?

Como você pode me deixar?

Escute enquanto eu falo


Refrão:


Depois que você se foi e me deixou chorando

Depois que você se foi, não há como negar

Você vai se sentir triste, vai se sentir infeliz

Você vai sentir falta da amiga mais querida que já teve

Esse momento virá, não se esqueça

Esse momento virá quando você se arrependerá


Algum dia quando você ficar sozinho

Seu coração vai se quebrar como o meu e você vai querer somente a mim

Depois que você se foi, depois que você se foi


Refrão


Algum dia quando você ficar sozinho

Seu coração vai se quebrar como o meu e você vai querer somente a mim

Depois que você se foi, depois que você se foi

sábado, 7 de junho de 2008

Castelo de Pedras Altas


O castelo de Pedras Altas se impõe nas desoladas planícies do sul do estado do Rio Grande do Sul como testemunha da história e patrimônio dos gaúchos. Nascido em São Gabriel, Joaquim Francisco de Assis Brasil - diplomata, político, revolucionário, agropecuarista e escritor - escolheu a sede do castelo em 1904. Situada a 30 quilômetros de Pinheiro Machado, Pedras Altas tem clima seco (altitude de 370 metros), pastagens abundantes e fontes de água. A pedra angular da fortaleza, de 44 cômodos, foi lançada em maio de 1909. Depois de ter atuado nas embaixadas de Washington e Portugal e discursado em parlamentos, Assis Brasil queria morar no campo. Também desejava oferecer conforto à segunda mulher, Lídia Pereira Felício de São Mamede, filha de José Pereira Felício, o segundo conde de São Mamede. Os dois se casaram em Lisboa, em 1898.
Pedras Altas impulsionou a atrasada pecuária gaúcha. Assis Brasil importou vacas jersey da Inglaterra, robustos touros devon, cavalos árabes e ovelhas karakul e ideal. Só criava animais de raça, como galinhas white wyandotte trazidas dos Estados Unidos. Ele também introduziu novas espécies de árvores, como o eucalipto, construiu estrebarias, galpões e porteiras que ainda funcionam. Ainda inventou utensílios, como a bomba de chimarrão de mil furos que jamais entope e leva o seu nome.
Assis Brasil ergueu a fortaleza com traços medievais numa das paisagens mais isoladas do Rio Grande do Sul para mostrar que era possível desfrutar a natureza sem ficar embrutecido. A idéia não era ostentar, mas enobrecer o campo. O diplomata, que privou com reis e chefes de Estado, achava que o arado e o livro eram as ferramentas do progresso. Em 1999 governo tentou tombar o castelo de Pedras Altas como monumento histórico, mas a família de Assis Brasil recusou, preferindo manter o castelo com a família.
O texto acima é de Nilson Mariano, publicado em Zero Hora, Porto Alegre, Ano 34, nº 11.681, 10/08/1997, páginas 47 a 49.
DIÁRIO DE CECÍLIA NARRA A VIDA NO CAMPO
Cecilia vestida de camponesa para colher aspargos
Por entre as ameias do castelo de Pedras Altas, Cecília de Assis Brasil não contemplou apenas as ondulações vertiginosas do campo. Numa época marcada por sabres ensanguentados, botas embarradas e relinchos de cavalos, a jovem, que devorava as poesias do norteamericano Henry Longfellow (1807-1882) em inglês e ouvia sinfonias de Ludwig van Beethoven na solidão do pampa, registrou o citidiano e as revoluções do início deste século. No seu diário, tão preciso quanto sensível, Cecília contou a vida no castelo e as conflagrações entre maragatos (libertadores de lenço vermelho no pescoço) e chimangos (republicanos de lenço branco).
Primeira filha do segundo casamento de Joaquim Francisco de Assis Brasil, Cecília era diferente da maioria das moças da virada do século. Ela nasceu em Washington, a 26 de maio de 1899, quando Assis Brasil era embaixador nos Estados Unidos. Morreu aos 35 anos, solteira, fulminada por um raio quando cavalgava nas proximidades do castelo de Pedras Altas. As fotos mostram uma mulher de olhos morenos arrebatadores, mãos delicadas, feições suaves e um sorriso compreensivo.
Cecília guardava o castelo quando o pai precisava se ausentar, peregrinando pelas cortes em intermináveis discussões diplomáticas. Era caseira e culta, conciliava as tarefas domésticas com os estudos. Gostava de produzir queijos, bater manteiga, dar mamadeira a cordeiros órfãos, cuidar de uma ninhada de pintos, colher aspargos. Sabia o ponto exato da calda de doce de figo. Também acompanhava o desenvolvimento das vacas jersey, importadas da Inglaterra, e das ovelhas karakul. Divertia-se com os irmãos em pescarias de lambaris ou longas cavalgadas. Lia autores clásicos e revistas como a Life e Les Annales quase diariamente. Quando estava triste, preferia os poemas de Longfellow. Atenta, observava a movimentação de políticos e revolucionários que iam ao castelo se aconselhar com Assis Brasil.
Os diários de Cecília (compilados pelo jornalista Carlos Reverbel e publicados pela L&PM) demonstram o quanto a família Assis Brasil adorava o campo. A 24 de outubro de 1916, quando tinha 17 anos, Cecília anotou:
Estive muito tempo parada, admirando os lindos touros devon há pouco chegados. São duas magníficas estampas... Demos umas voltas a pé, de tarde, e as minhas companheiras tentaram convencer-me que São Paulo ou Paris são melhores do que o Ibirapuitã. Quando for a esses lugares saberei ao certo, mas por enquanto agarro-me ao meu ideal: a vida do campo. Sou assim, e agora?
As anotações no diário mostram como era a rotina em Pedras Altas. Os Assis Brasil madrugavam, faziam serviços de casa e nunca descuidavam da educação. Cecília falava inglês e francês, mas também entendia o linguajar rude dos gaúchos. Tanto podia ler The Jungle Book, de Rudyard Kipling, como citar expressões do tipo "de vereda" (repentinamente), "mateando" (tomando chimarrão) e "bóia" (refeição). A três de janeiro de 1923 ela antecipou a inconformidade dos libertadores, liderados por Assis Brasil, com fraudes eleitorais que reconduziram Antônio Augusto Borges de Medeiros ao governo pela quinta vez:
Encaixotei a manteiga para diversos fregueses (Cia Swift, C. Wigg, F. Lima, Hotel Schaefer e F. Amaral). Enviei também as contas do mês passado. Mandei parar rodeio e dar sal ao gado. Os jornais continuam a trazer notícias alarmantes. Parece que o Chimango (os maragatos apelidaram Borges de Medeiros com o nome dessa espécie de gavião) está distribuindo armamentos. We are prepared!
Em 19 de abril de 1923, Cecília alertava que a guerra era inevitável. Os moradores do castelo de Pedras Altas ficaram apreensivos e adotaram algumas providências:
... É quase certa uma revolução, quando o Borges tomar posse. Os jornais publicam um telegrama do papai, aconselhando calma e dignidade diante das provocações, e a reagir com energia diante de ataques materiais... Decidimos esconder o que pudermos, sem dar nas vistas. Subi ao esconderijo, feito a propósito. Auxiliada pelas manas, lá depositei diversas pastas de papéis, com a maior economia de espaço... Imagino só a aflição da mamãe, tão longe de nós. Antes de me deitar dei um tiro num cão que estava comendo lavagem na porta da cozinha.
Cães e chimangos não eram bem-vindos. A revolução de 1923 convulsionou o Estado. Cecília e os irmãos tiveram de abandonar o castelo, exilando-se no Rio de Janeiro, onde já estava o casal Assis Brasil. Cecília voltaria para Pedras Altas outras vezes. Ela poderia ter morado em Paris ou Washington. Preferiu a amplidão dos campos.
O texto acima é de Nilson Mariano, Zero Hora, Porto Alegre, Ano 34, nº 11.681, 10/08/1997, páginas 47 a 49.
Apresentamos a seguir um interessante artigo de OLYR ZAVASCHI, publicado no jornal Zero Hora, que trata do acordo obtido em Pedras Altas que deu fim à revolução de 1923.
O FIM DAS GUERRAS CIVÍS
Assinatura do término da revolução de 1923 no castelo de Pedras Altas.À esquerda o General Setembrino de Carvalho e à direita o Dr. Assis Brasil
A paz de Pedras Altas, entre as forças políticas que apoiavam BORGES DE MEDEIROS e suas reeleições sucessivas e aquelas que haviam se insurgido contra isso sob o comando de JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL foi assinada no castelo deste último em 14 de dezembro de 1923. A Revolução de 1923 durara apenas 11 meses, mas projetara sombras de preocupação sobre o estado. Estavam vivas ainda em todas as famílias as recordações da guerra de 1893, que fora o mais desapiedado de todos os confrontos da história do Rio Grande. As histórias das degolas e dos degoladores estavam presentes no imaginário popular. O recomeço de um confronto entre chimangos (que apoiavam o governo) e libertadores provocou, por isso, a preocupação em todo o país.
A paz foi conquistada depois das negociações comandadas pelo ministro da Guerra, general FERNANDO SETEMBRINO DE CARVALHO, com a participação do senador JOÃO LYRA, representante do Congresso. O acordo obtido em Pedras Altas previa o fim daquilo que os rebeldes chamavam de "ditadura republicana"que permitia a reeleição sucessiva de BORGES DE MEDEIROS. Este concluiria seu mandato e não mais se recandidataria.
O acordo foi importante para o Rio Grande do Sul. O sucessor de Borge no governo gaúcho seria GETÚLIO VARGAS. Em 1930, a frente única rio-grandense teria forças pata assumir o governo do país.
O texto acima é de Olyr Zavaschi, publicado em Zero Hora, Porto Alegre, 25-11-2003 página 54.
A DURA LIDA, A DOCE CALMA E OS FRAGMENTOS DE HISTÓRIA
Imponente por fora na solidez dos granitos rosados, com os torrões medievais parecendo vigiar a solidão dos campos, o castelo de Pedras Altas também impressiona por dentro. Móveis de madeira maciça, lareira fumegando, estátuas, espadas antigas, relógios que gemem pesadamente e retratos amarelecidos revelam segredos da família de Joaquim Francisco de Assis Brasil e mostram fragmentos da história do Rio Grande do Sul. Entrar na fortaleza é como espiar uma época de sonhos, revoluções e ideais.
Já na entrada do castelo, o visitante depara com a inscrição gravada na laje:
Bem-vindo à mansão que encerra
Dura lida e doce calma:
O arado que educa a terrra;
O livro que amanha a alma.
Mais do que uma recepção, o verso indica a filosofia de Joaquim Francisco de Assis Brasil. Suor e sabedoria. Na granja de 300 hectares onde desponta o castelo, todos trabalhavam e cuidavam da educação. Depois de ordenharem as vacas jersey, podiam ler Sheakespeare em inglês.
A incursão pelo castelo começa pelo hall. Os móveis, estilo colonial, importados de Nova York, acomodaram políticos, revolucionários e intelectuais. Um enorme relógio, que pertenceu a Bento Gonçalves, o comandante da Revolução Farroupilha (1835-1845), titetaqueia sonolento. Cada objeto conta alguma história. Uma das janelas está com quatro vidros quebrados. Eles lembram que os chimangos (republicanos) invadiram a fortaleza. Assis Brasil não consentiu o conserto da vidraça, argumentando que "toda casa deve ter suas cicatrizes"
Assis Brasil brinca de Guilherme Tell em 1902, no Rio de Janeiro,e acerta uma maçã sobre a cabeça de Alberto Santos=Dumont
O passeio continua pela sala do piano, onde as filhas de Assis Brasil alegravam os saraus. Nas paredes, fotografias expõem cenas insólitas. Numa delas Assis Brasil aparece brincando de Guilherme Tell com Santos-Dumont. Exímio atirador, o diplomata acertou uma maçã colocada sobre a cabeça do pai da aviação.
A sala de jantar vai virando a roda do tempo. Uma fantasmagórica caveira de cervo comprova outra peripécia. Em 1895, Assis Brasil foi nomeado embaixador plenipotenciário para Portugal, com a missão de melhorar as relações diplomáticas, então bastante azedas. Habilidoso e cativante, Assis Brasil logo caiu nas graças do rei Dom Carlos. Durante uma caçada, o rei mandou que o diplomata disparasse o primeiro tiro contra um cervo. Assis Brasil desculpou-se. O privilégio era de Sua Majestade. Como Dom Carlos insistisse muito, Assis Brasil atirou. O animal continuou andando. Então, o rei abateu a presa e, antes de se dirigir ao cervo caído, perguntou: "Mas onde está a sua fama de bom atirador?" A resposta: "Verifique a galhada direita, Majestade!" Diplomaticamente, Assis Brasil tinha atingido apenas o chifre do cervo (ver foto nº 27, na Galeria de Fotos abaixo).
Todos os 44 cômodos do castelo fascinam. A mobília dos aposentos de Assis Brasil veio de Paris. Doze lareiras aqueciam a família, Os banheiros ficavam dentro da fortaleza, numa época em que a lei mandava instalar sanitários fora das casas. Mas a biblioteca, talvez, seja a mais valiosa, com 15 mil livros. Há clássicos em inglês, francês e latim. Entre as relíquias, 22 volumes da Enciclopédia, de Diderot e D'Alambert, de 1751.
Os descendentes de Assis Brasil preservam o castelo. Zelam por cada fotografia, livro, cristal, prataria. Guardam datas e acontecimentos que permeiam a história do Rio Grande. Também estão mantendo a produção da granja. Os touros devon continuam arrebatando prêmios. As vacas jersey pastam ao redor das muralhas, fornecendo o leite para a fabricação da centenária manteiga de Pedras Altas. Assis Brasil e Lídia repousam no cemitério da Boa Viagem, à sombra de ciprestes e eucaliptos que semearam.

Taj Mahal


Umas das 7 maravilhas do mundo, praticamente todos já o viram em inúmeras fotografias, mas o que poucos sabem, é a história que está por detraz deste inigualável monumento. O Taj Mahal, é não mais do que uma ode ao amor e representa toda a eloquência que este sentimento pode ser. Durante séculos, o Taj Mahal inspirou poetas, pintores e músicos que tentaram capturar a sua magia em palavras, cores e música. Viajantes cruzaram continentes inteiros para ver esta esplendorosa beleza, sendo poucos os que lhe ficaram indiferentes.
Como todas as histórias, esta também começa da mesma maneira... Era uma vez um príncipe chamado Kurram que se enamorou por uma princesa aos 15 anos de idade. Reza a história que se cruzaram acidentalmente mas seus destinos ficaram unidos para todo o sempre. Após uma espera de 5 anos, durante os quais não se puderam ver uma única vez, a cerimónia do casamento teve lugar do ano de 1612, na qual o imperador a rebaptizou de Mumtaz Mahal ou "A eleita do palácio". O Príncipe, foi coroado em 1628 com o nome Shah Jahan, "O Rei do mundo" e governou em paz.
Quis o destino que Mumtaz não fosse rainha por muito tempo. Ao dar à luz o 14º filho de Shah Jahan, morreu aos aos 39 anos em 1631. O Imperador ficou tremendamente desgostoso e inconsolável e, segundo crónicas posteriores, toda a corte chorou a morte da rainha durante 2 anos. Durante esse período, não houve musica, festas ou celebrações de espécie alguma em todo o reino.
Shah Jahan ordenou então que fosse construído um monumento sem igual, para que o mundo jamais pudesse esquecer. Não se sabe ao certo quem foi o arquitecto, mas reuniram-se em Agra as maiores riquezas do mundo. O mármore fino e branco das pedreiras locais, Jade e cristal da China, Turquesa do Tibet, Lapis Lazulis do Afeganistão, Ágatas do Yemen, Safiras do Ceilão, Ametistas da Pérsia, Corais da Arábia Saudita, Quartzo dos Himalaias, Ambar do Oceano Índico.
Surge assim o Taj Mahal. O seu nome é uma variação curta de Mumtaz Mahal.. o nome da mulher cuja a memória preserva. O nome "Taj", é de origem Persa, que significa Coroa. "Mahal" é arábico e significa lugar. Devidamente enquadrado num jardim simétrico, tipicamente muçulmano, dividido em quadrados iguais cruzado por um canal ladeado de ciprestes onde se reflecte a sua imagem mais imponente. Por dentro, o mausoléu é também impressionante e deslumbrante. Na penumbra, a câmara mortuária está rodeada por finas paredes de mármore incrustado com pedras preciosas que forma uma cortina de milhares de cores. A sonoridade do interior, amplo e elevado é triste e misterioso, como um eco que soa e ressoa sem nunca se deter.
Sobre o edifício surge uma cúpula esplendorosa, que é a coroa do Taj Mahal. Esta é rodeada por quatro cúpulas mais pequenas, e nos extremos da plataforma sobressaem quatro torres que foram construídas com uma pequena inclinação, para que em caso de desabamento, nunca caiam sobre o edifício principal.
Os arabescos exteriores são desenhos muçulmanos de pedras semi preciosas incrustadas no mármore branco, segundo uma técnica Italiana utilizada pelos artesãos hindus. Estas incrustações eram feitas com tamanha precisão que as juntas somente se distinguem à lupa. Uma flor de apenas sete centímetros quadrados, pode ter até 60 incrustações distintas. O rendilhado das janelas foi trabalhado a partir de blocos de mármore maciço.
Diz-se que o imperador Shah Jahan queria construir também o seu próprio mausoléu. Este seria do outro lado do rio. Muito mais deslumbrante, muito mais caro, todo em mármore preto, que seria posteriormente unido com o Taj Mahal através de uma ponte de ouro. Tal empreendimento nunca chegou a ser levado a cabo. Após perder o poder, o imperador foi encarcerado no seu palácio e, a partir dos seus alojamentos, contemplou a sua grande obra até à morte. O Taj Mahal foi, por fim, o refúgio eterno de Shah Jahan e Mumtaz Mahal. Posteriormente, o imperador foi sepultado ao lado da sua esposa, sendo esta a única quebra na perfeita simetria de todo o complexo do Taj Mahal.
Após quase quatro séculos, milhões de visitantes continuam a reter a sua aura romântica... o Taj Mahal, será para todo o sempre um lágrima solitária no tempo.


Taj Mahal

letra de Jorge Bem Jor


Essa é a história de uma linda história de amor

Que me contaram e agora eu vou contar

Do amor do príncipe Shash Jahan, pela princesa Mumtaz Mahal


Do amor do príncipe Chan Jahan, pela princesa Mumtaz Mahal

Tê tê teteretete,

Foi uma linda história de amor

Que me contaram e agora eu vou contar

Do amor do prícipe Chan Jahan, pela princesa Mumtaz Mahal

Do amor do prícipe Chan Jahan, pela princesa Mumtaz Mahal

Pê pê pê pe pepeperepê

Uou uou,

pê pê pê pe pepeperepê

Uou uou,

pê pê pê pe pepeperepê

Pê pê pê pe pepeperepê

Uou uou,

pê pê pê pe pepeperepê

Uou uou,

pê pê pê pe pepeperepê

Uou uou,

pê pê pê pe pepeperepê

10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1...

domingo, 1 de junho de 2008

Clementina, Clementina de Jesus


Nascida no interior do estado do Rio, mudou-se com a família para a capital do estado, radicando-se no bairro de Oswaldo Cruz. Lá acompanhou de perto o surgimento e desenvolvimento da escola de samba Portela, freqüentando desde cedo as rodas de samba da região.Em 1940 casou-se e mudou para a Mangueira. Trabalhou como doméstica por mais de 20 anos, até ser "descoberta" pelo compositor Hermínio Bello de Carvalho em 1963, que a levou para participar do show "Rosa de Ouro", que rodou algumas das capitais mais importantes do Brasil e virou disco pela Odeon, incluindo, entre outros, o jongo "Benguelê". Devota de Nossa Senhora da Glória do Outeiro, participava de festas das igrejas da Penha e de São Jorge, cantando músicas de romaria.Considerada rainha do partido-alto, com seu timbre de voz inconfundível, foi homenageada por Elton Medeiros com o partido "Clementina, Cadê Você?".Além deste gênero gravou corimás, jongos, cantos de trabalho etc., recuperando a memória da conexão afro-brasileira.Em 1968, com a produção de Hermínio Bello de Carvalho, registrou o histórico LP "Gente da Antiga" ao lado de Pixinguinha e João da Bahiana. Gravou quatro discos solo (dois com o título "Clementina de Jesus", "Clementina, Cadê Você?" e "Marinheiro Só") e fez diversas participações, como nos discos "Rosa de Ouro", "Cantos de Escravos" e "Milagre dos Peixes", de Milton Nascimento, em que interpretou a faixa "Escravos de Jó".Em 1983 foi homenageada por um espetáculo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com a participação de Paulinho da Viola, Joao Nogueira, Elizeth Cardoso e outros nomes do samba.



Laçador


Olha o boi lá, olha o boi lá
olha o boi lá Sá dona, olha o boi lá
veja que carreiro bom
é carreiro da fazenda
o carro ta na lama
o carreiro ta na venda
se quiser pinga da boa
mande o calango buscar
é nego tem perna fina
ele vai e volta já
olha o boi...
você pra cantar imagina
eu canto sem imaginar
trago letra na cabeça
como letra no jornal
Chiquinha compra e me vende
Totonha compra e me dá
comprei uma boneca
pra menina batizar